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  • Ana Paula Guerra

Você sabe com quem está falando?

Roberto DaMatta e seus insights sempre foram sublimes em relação ao povo brasileiro.

O Brasil nunca foi surdo mas ouve expressões tão alto há tanto tempo que seus tímpanos já estão debilitados desde o descobrimento. Os gritos da desigualdade irrompem um dia a dia que deveria ser pacífico na rotina das pessoas — trabalhar, voltar pra casa e dedicar algum tempo para si mesmo, antes do descanso para o dia seguinte.


Mas é justamente nessa hora — a hora do descanso — que os berros da pressão financeira, das humilhações golfadas pelo chefe e da consequente (e sem escolha) negligência consigo mesmo ressoam em nossos tímpanos, cumprindo seu papel de capiroto trovejando ao lado esquerdo do ombro.


O pão nosso de cada dia — que o Diabo amassou

Você está falando com o desrespeito ao ser humano, quando é hostilizado por ser negro, mulher, ou por não estar vestido “adequadamente”. Você está falando com gente que usa transporte público super-hiper-mega lotado e chega exausto no trabalho, ainda tendo que enfrentar 8 horas (no mínimo) de labuta, sem esquecer de agradecer — de joelhos — pelo sustento que garante o pão nosso que o Diabo amassou. Todo Santo Dia..


Você sabe com quem está falando?

Você está falando com a Pandemia, (quase) velha conhecida do seu dia a dia. Você está falando com gente que tem muito mais chances para enfrentar essa doença através de um super-herói que atende pelo nome de ouro. Você está falando com a corrupção, sempre em apuros, clamando pelos trabalhos do Superouro. Tão super que nem a força de um hífen é capaz de enfraquecê-lo.

Quem somos? Publicado no jornal Estadão em

5 de agosto

Do mesmo autor da frase “Você sabe com quem está falando” (do livro Carnavais, Malandros e Heróis, publicado em 1997), vem a pergunta: “Quem somos”? do artigo publicado em 5 de agosto de 2020 no jornal Estadão. E a resposta, encorpada, cheia de bom senso, revela um Brasil fiel à primeira pergunta.


“No Brasil, a pandemia desnuda

quem se imagina especial,

nobre ou superior. Essa gente

que está em todo lugar e tem

a liberdade de não obedecer a nenhuma

regra ou de servir a qualquer governo (...)


Acho um abuso um sinal vermelho e, quando

vejo um pedestre atravessando a rua, acelero

o meu carro principalmente se for um

velho caquético ou uma negra com o filho

nos braços.” Civilização, dizem, é saber o seu lugar!


Cabe a pergunta: será mesmo preciso

usar máscaras? Ou estamos todos mascarados

porque sabemos bem quem somos?


Você sabe com quem está falando?

Você está falando com os mortos.







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